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Agosto 11, 2005

A nossa relatividade (ep. II)

"Não deixa de ser curioso como algumas pessoas se deixam morrer por entre o tempo"


Dois anos haviam passado e ele agora morava na zona velha de Lisboa, ali entre a Graça e Alfama, onde a feira da ladra tem lugar cativo às terças e Sábados…
Sempre tivera tendência para se deixar morrer mas por alguma razão naquele dia ela estava mais forte que nunca, e o tempo, aquele que era suposto apagar tudo, falhou…

Saiu de casa e foi dar uma volta a pé, gostava de ver a azáfama dos vendedores em véspera de feira, talvez porque nunca gostara de estar sozinho em casa, logo ele que estava sempre sozinho mesmo nas ocasiões em que fisicamente não o estava. A sua vida é feita de contradições como esta e como o caminho que percorreu… seguiu até à Praça do Comercio pelas ruas e becos interiores, é que estão mais desertos àquela hora e o ruído dos carros não se sente tanto permitindo que aprecie a sua sombra, originada pela luz parca dos poucos candeeiros que acompanham as ruas naquele bairro, e as hesitações que ela tem a cada cruzamento.
A vida é feita de caminhos e cruzamentos, sempre acreditou, e talvez por isso gostasse tanto de dar aquele passeio, talvez fosse uma fuga ao que pensava ser o seu destino, é que ele, deixem-me confidenciar, nunca foi bom a encarar as coisas da vida principalmente quando elas vêem de dentro, o caminho que percorria nunca era escolhido, nunca o foi, mas passava sempre pelos mesmos sítios, mesmo que as ruas que percorresse não fossem as mesmas e mesmo que conscientemente não escolhesse aonde queria ir, o subconsciente tem destas coisas…
O cais das colunas marcava sempre o ponto de retorno, era como se tivesse chegado ao destino, descarregado toda a carga que tinha levado, abastecido e estava pronto para a viagem de regresso, o reflexo da lua no rio ainda hoje é um combustível sem par para as amarguras da sua existência. Pelo caminho tinham ficado os becos e ruas de Alfama e para a frente encontrava-se a “peregrinação de St.º António”, como ele gosta de chamar ao caminho feito pelas pessoas na noite de St.º António em direcção ao castelo de S. Jorge… sempre foi um dos seus lugares de eleição, a vista da cidade é soberba, e as muralhas remetem-no para outras vidas, para outros “sentires”.
Três horas depois de ter saído estava de regresso às águas furtadas de onde tinha saído, pôs a chave na porta com a certeza que tinha sido uma noite como tantas outras em que saiu carregado e regressou leve, pronto para dormir e esperar que o que faltava da noite conseguisse apagar o que dois anos não conseguiram.
Entrou em casa, parca em móveis, não gostava de limpar e para além disso sempre gostou de espaço aberto, pôs um cd no leitor, era o seu grupo favorito, sempre foi um vicio seu, tudo muda mas aquele grupo é uma constante na sua vida desde os 13 anos, sentou-se no sofá e ouviu cada som que saía das colunas como se fosse a ultima vez, ao seu lado repousavam um copo de gin com água tónica, sempre detestou o sabor do gin, e uma caixa branca com um pequeno hexágono azul, a tentação (curioso como, mesmo sabendo-nos incapazes de resistir a tentações gostamos de as ter por perto), que tinha ido buscar à cozinha antes de colocar o cd…
Levantou-se, dirigiu-se à janela e olhou a rua, como se a rua se fosse embora, abriu a janela e debruçou-se para, mais uma vez, ver a azáfama dos vendedores um bocado mais acima, a claridade do dia já estava a aparecer, nunca gostou do sol, voltou ao sofá sentou-se confortavelmente e começou a tomar um a um os comprimidos que havia trazido…

um,

dois,

…,

quatro,

…,

oito,



como que acompanhando o ritmo da música que soava pela sala.